2 de janeiro de 2018

inúmeros olhos para ver o mundo

peter O sagae


O sentido de um livro vai além dos fatos que ele vem contar, o sentido de um livro lá está no arrazoado de ideias novas que dá ao leitor para encontrar e colher. Assim é a narrativa de Afonso Cruz a respeito de um pintor que iremos ver, como antecipa o título, debaixo da pia, em algum momento da trama... As hipóteses de leitura a serem talhadas mentalmente talvez me fossem duas: um artista que se esconde dentro de um homem comum, fosse ele um encanador, ou realmente um homem extraordinário, um artista a esconder-se do mundo e doutros homens que lhe acossam o viver.

Claro está que o autor não desejou trabalhar com a dúvida e, na Introdução para O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS (Editorial Caminho, 2011; Peirópolis, 2016), já o leitor é arremessado a um quadro pintado em 1940 por um Josef Sors, cujo olhos intrigantes para a vida abriram-se em 23 de novembro de 1895, filho da engomadeira e do mordomo de um coronel Möller, em uma cidade que ainda não se chamava Bratislava às margens do Danúbio, na Eslováquia. Ora, mais importante que nomes e datas, apontamentos corretos, é a certeza de que “todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso”. E o quadro que o narrador diz resistir em um pequeno recinto de entrada de uma casa na Figueira da Foz, esse quadro, nós leitores não o vemos nem temos pistas sobre o que nele se deveria ver!


Habilmente escrito no ritmo de capítulos curtos, a obra divide-se em duas partes – O LIVRO DOS OLHOS ACESOS e O LIVRO DOS OLHOS APAGADOS, nomes que fazem referência aos pequenos cadernos de desenho que Josef Sors levava sempre consigo. A primeira parte corresponde a dois terços da obra e pode, estruturalmente, ser dividida em duas seções: 1) aquela que se conta da infância, os anos de instrução ao lado de Wilhelm, a peculiar rotina familiar, a primeira impressão do amor como um infinito fora do alcance das mãos, a imagem de Františka a voar em um balanço no quintal contra o céu, e 2) os acontecimentos posteriores a vinte e oito de junho de mil novecentos e catorze, as muitas paisagens que Josef poderia pintar do mundo. Deste modo, 3) a última parte trata da esperança oculta às escuras, dos olhos que não podem, não querem enxergar os traços de luz nem o sol à sua volta. É uma novela em três atos, três movimentos, muito precisos – e preciosos – porque trata da dialética existencial: estar em si mesmo e sair de si para reencontrar-se.

* * *

Para quem aprecia colecionar frases, Afonso Cruz oferece uma narrativa plena de motivos para refletir – ao brincar com temas, como o amor, a guerra, a cultura, os enfrentamentos pessoais, as desventuras humanas, as palavras – e sorrir o sorriso discreto dos filósofos. Ou dos poetas. Porque já sabemos que a travessia pela primeira metade do século XX fez do homem, qualquer homem de qualquer idade e qualquer lugar, um projeto perante a existência. Sim, é necessário lançar-se ao mundo para conhecer-se. Todo homem é um viajante.


O'ABRE ASPAS 

“Wilhelm reparava que Havel Kopecky costumava acender um cigarro no outro. É como eu com os livros, pensava ele. Há pessoas que julgam que podem ler um livro do princípio ao fim, mas isso não é possível. A última página de um livro é a primeira do próximo, dizia Wilhelm, como os cigarros de Kopecky. Jozef Sors encolhia os ombros. Quando Jozef era mais novo e tinha dificuldade em sentar-se à mesa confortavelmente, a sua mãe punha-lhe uma almofada debaixo do rabo. A Wilhelm, a ama punha um ou dois livros, conforme o número de páginas. Ainda não sabia ler e já pedia concretamente este ou aquele livro para se sentar em cima dele. Mais tarde haveria de dizer que a altura de um homem depende dos livros que lhe serviram de base.” Afonso Cruz: O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS (2011) #afonsocruz Editora Peirópolis (2016, p. 38)

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