26 de julho de 2016

o estado das coisas

O'ABRE ASPAS


"Ainda era confuso o estado das coisas do mundo, no tempo remoto em que está história se passa. Não era raro defrontar-se com nomes, pensamentos, formas e instituições a que não correspondia nada de existente. E, por outro lado, o mundo pululava de objetos e faculdades, e pessoas que não possuíam nem nome nem distinção do restante. Era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atrito com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso -- por miséria ou ignorância ou porque tudo dava certo para eles do mesmo jeito -- e assim uma certa quantidade andava perdida no vazio." (Italo Calvino) O CAVALEIRO INEXISTENTE (1959) trad. Nilson Moulin: 1999 p. 35.

23 de julho de 2016

dizer tudo com o mínimo

Julho Amarelo 5 Peter O.ô Sagae


Era uma vez um rei mandão... Ele morava num livro de capa amarela e na minha memória. Quando volto a um título antigo, confirmo, pelo caminho, aqueles textos que não gostaria de esquecer. E aqui se digo texto, digo UMA PALAVRA SÓ para designar o todo que é um livro ilustrado por Angela Lago à roda dos signos verbais e visuais para contar uma história e abrir múltiplos sentidos. Bem se vê, uma aula-aventura: como conversar com a tradição oral e pensar a narrativa impressa #editoramoderna (1996) #angelalago #literaturainfantil



Há um modo de fazer um livro encenado.


Os personagens passeiam pelas páginas como figurinhas em três dimensões. As sombras projetam-se à frente e atrás de um movimento do corpo, da cabeça e das mãos como que adivinhando o futuro ou sinalizando o passado. Num jogo de contornos e transparências, o rei, os três ministros e o príncipe revelam seus sentimentos e intenções, prolongando-se diante do nosso olhar...


Mas há, no livro, duas figuras femininas de suma importância. Laço de fita lilás-amarelo nos cabelos. Elas não são mera representação de novos personagens, mas a presença personificada de dois agentes literários: o narrador e o narratário. Se quiser, dispense a teoria e diga apenas: a contadora do causo e sua ouvinte, admiradas, fofoqueiras, inscritas visualmente no texto de Angela Lago.

O gesto e a corporalidade de quem conta uma história – e a quer corrigir – eram já pressentidos no discurso verbal desde o início da narração. Ouça só! “Era uma vez um rei mandão. Ou melhor: era, mais uma vez, um rei mandão. Pois é... Mandar é a sina dos reis, e muitos exageram. O nosso, por exemplo, acreditava que era o dono de tudo, inclusive da verdade. Um dia...”

Um dia, eu discutia com um grupo de autores sobre a magia da oralidade na linguagem escrita. E como construir o fio da história na meada do som. Alguns livros são exemplares e não os abandono, pois revelam as artimanhas de envolver o leitor (ouvinte e espectador) na trama das palavras e das imagens. Imagem impressa na página e imagem impressa na mente. Bacana, hein? Essa é Angela Lago.


E comentar um livro não é apenas virar as páginas pelo conteúdo, correndo pela narrativa: a história de um rei autoritário, cercado de puxa-sacos, que desejava castigar quem não concordasse com ele. Quis a sorte, porém, que o filho fosse pego por sua lei e só poderia usar UMA PALAVRA SÓ para se comunicar com as outras pessoas. Tá aí o plot para um resumo. Tá aí também o diálogo com a tradição dos contos populares. Por exemplo, a história dos três aprendizes dos Grimm.

No entanto, a fada de hoje é outra. E sua lição: contornar a dificuldade e dizer tudo com o mínimo aprendido através das letras e fonemas de uma palavra só... exclusivamente, uma palavra só, libertando muitas outras do seu interior. Este é um jogo de esperteza, uma das características das obras de Angela Lago elegendo personagens que se metem em concursos de adivinhações e devem responder três questões para salvar sua vida.


Vinte anos de encantamento e o livro permanece atual em suas múltiplas articulações. Deus nos livre das leis absurdas e dos candongueiros por aí. UMA PALAVRA SÓ recebeu o Prêmio Bloch Educação – Literatura Infantil 1996 e também o selo Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, pela autoria e ilustração.

21 de julho de 2016

Próximo!

Julho Amarelo 4 Peter O.ô Sagae


Nem todos os livros para crianças precisam ser fofos* ou demasiadamente instrutivos... BOM DIA, DOUTOR, da dupla Michaël Escoffier e Matthieu Maudet (2010), é um livro encenado com recursos de HQ. Na sala de espera, os pacientes, um a um, vão... sumindo! Um coelho com dor de ouvidos, um jacaré com dor de dente? Todos os seis personagens esperam o médico abrir a porta e chamar. Próximo! Mas algo saborosamente sórdido acontece... #edicoessm (2015) #michaelescoffier #matthieumaudet #literaturainfantil #humor trad. graziela r. s. costa pinto


A narrativa é uma anedota para leitores de 18 meses a três anos que, mesmo informalmente, poderão realizar diversas atividades de epilinguagem. Obedecendo a lógica e a estrutura fácil da narração oral, aqui se vê um balão de fala, logo adiante uma onomatopeia. PAF! Visual e verbal articulam situações comunicativas padrões, como o chamado na sala de espera, a queixa de cada paciente, o diagnóstico e a prescrição do médico. Porém tudo com humor que agrada também leitores mais experientes.




O jogo é ampliado pelo ritmo da ilustração. Afinal, pedir às crianças que digam e descrevam os seis personagens, criem hipóteses por quê motivos foram eles ao consultório e... qual o acontecimento estranho e misterioso que faz o número de pacientes diminuir mais rapidamente que os atendimentos? Quem será (se você já adivinhou) a próxima vítima?


P.S. Por que o elefante foi ao médico? Não, esse não é o motivo central da trama, nem da piada. Para completar uma resenha deveria eu contar que um desses personagens está... CHOMP-chomp-CHOMP, deixa pra lá!
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