24 de maio de 2017

afogando em sonhos...

Peter O.ô Sagae


A primeira publicação autoral independente que conheci foi um pequeno livro azul clarinho, reprodução em xerografia, tiragem: 30 exemplares assinados pelo artista gráfico e ilustrador Nik NevesACQUA ALTA é um livro de imagem produzido em 2013, contendo uma das mais belas narrativas visuais que tenho visitado


– e poderia sempre repetir essa viagem às suas páginas, acompanhado, curiosamente, com o som do grupo de rock e neofolk italiano Calle della Morte, em especial o álbum Gente di malaffare (2005).


A ilustração foi realizada digitalmente, mas a impressão em preto provoca uma sensação de aguada de nanquim e o azul do papel que realça a fria ambientação das sombras da cidade de Veneza, com seus canais abraçando antigos prédios com pés na água, num labiríntico jogo de esquinas e histórias que por lá se perdem... É necessário concordar que a Sereníssima cidade realmente são duas; existe a Veneza dos turistas e dos apaixonados, dos passeios de gôndola, das construções em claros e escuros de rosa, vermelho, bege, tons de terra, amarelos variados e mármore, janelas verdes e brancas guarnições, uma cidade feita de máquinas fotográficas e selfies em suas pontes, lojas, máscaras, livrarias, cafés e muitas vozes; mas há a outra cidade que se perde na presença da outra – é a Veneza do silêncio.


A narrativa de Nik Neves orienta-nos por entre a vida agitada e o olhar encontra a personagem de uma menina de cabelos escuros e curtos, desacompanhada dos pais ou de qualquer outro adulto. Ao entrar em uma loja, ela coloca uma máscara sobre o rosto e o leitor, por um instante, vê através de seus olhos, seu ponto de vista. Tal recurso tão simples, comum e caro ao antigo cinema, toma a função de calar os ruídos da cidade e abrir a segunda parte da história. Em frente a um espelho, os gestos da menina tornam-se mais amplos, como se, de repente, sob as asas do disfarce, ela pudesse viver solitariamente o sonho das identidades ocultas pelas ruas da cidade...


Livre, correndo, a menina encontra a outra cidade no silêncio de Veneza. Penetra, então, na estreita Calle della Morte e, dobrando o cotovelo de um L, chega a um paço onde não há ninguém, ninguém vivo ou lendário, apenas uma pomba sobre o ladrilho de cimento secular... Contudo, alguém mais observa a menina!


A terceira parte da história começa com a resolução do suspense, mas introduzindo o clima de mistério com um personagem mascarado e a fantasia de arlequim. A partir de então, somos obrigados a seguir... afogando em sonhos – essa espécie de acqua alta, maré de outono que transforma nosso caminhar por entre os braços e os palácios de Veneza...

* * * 

É possível acompanhar toda a aventura de ACQUA ALTA no espaço Inutil Projetc, juntamente a outros trabalhos de Nik Neves.


O que se destaca para a leitura de quadrinhos e dos livros de imagem para crianças, essa espécie de livros ilustrados, é a capacidade do artista em articular rapidamente as cenas em uma sequência bastante clara, propondo soluções de continuidade entre uma imagem e outra, sem distrair o seu leitor – isto é, a história é apreendida pela ação da personagem, o cenário que se enriquece pouco e pouco, sem o desconforto de tentativas frustradas de “adivinhar” as relações de causa/efeito... O tempo fragmentado, com Nik Neves, vai se constituindo em um continuum por vezes mais iluminador e mágico do que vem acontecer em certas narrativas de literatura infantil.

23 de maio de 2017

observe o desenho

Peter O.ô Sagae


Dois cômodos anexos, vistos do alto, em perspectiva... eles são feito a letra E, com apenas quatro paredes e janelas (uma externa, outra interna). Você pode desenhar isso, seguindo minhas palavras? Talvez sinta falta de outra parede, mas seu desenho iria se parecer com o número oito de um relógio digital, não sei. Seu desenho deve ter um chão, um piso, mas não escolha colocar um telhado acima, não, não ainda. E há uma porta “redonda” na última parede que vemos, repetindo: você deve fazer o seu desenho em perspectiva. Treine e coloque a porta, como sói acontecer, abrindo passagem para longe, como se fosse atravessar o fundo do papel. É possível? Treine sua percepção, antes de prosseguir o próximo parágrafo. Use uma régua, e não um compasso. Um lápis. Uma borracha. E vamos começar outra vez: dois cômodos anexos como se fossem um E...


Observe seu desenho – ou projeto de desenho, construção, e verifique se o estranho sólido figura como solto no espaço branco do papel. Use sua capacidade máxima de abstração e imagine-se, veja-se, como uma linha vermelha tão maleável e frouxa como deve ser uma linha que deixou o carretel para trás. Então, você – isto é, a linha em que você se transformou, vai se projetar por este espaço virtual. Sua missão: entrar ao centro da primeira janela para dentro do cômodo, passar a segunda parede e alcançar a porta na última parede que temos no desenho em perspectiva. Agora você-vermelho atravessou o fundo do papel. Foi possível, com certeza.

A linha de sua imaginação se projetou para outro espaço, além da primeira página. Ávido, você deve estar ávido para alinhavar o próximo desenho. Qual seria?



Pois brincando com retas e a ilusão da perspectiva perfeita, a perspectiva renascentista, Catarina Abreu Sabino provoca nossa observação por espaços que só poderiam existir em nossa mente e no desejo do desenho na superfície do papel. Arquiteturas melindrosas e melífluas compõem ESPAÇOS FLUTUANTES (2016) que convidam o olhar a pastar a transparência vegetal do pergamenata naturale, lentamente, e então descobrir, nesta viagem, o humor das coisas insólitas.


Para não deixar o espectador totalmente desamparado, a autora e artista visual deu-nos uma linha vermelha para amarrar um espaço a outro, uma admiração a outra e a possibilidade de pensar: fossem assim os labirintos e os parques de diversão!


P.S. Talvez você me pergunte o que isso tem a ver com livros para crianças... Respondo: alguma coisa tem. Conceitos e formas de localização, raciocínio espacial, geometrias inventivas, non-sense e virtualidades como linguagem.

22 de maio de 2017

“no oceano não tem onça”

Peter O.ô Sagae


Bem simples, certamente bem mais simples que outras postagens desta série a respeito de publicações independentes próximas ao sistema literário para crianças, porém não menos importante, apresentamos aqui uma plaquete – ou seja, um pequeno impresso para divulgar obras de curta extensão: poemas, um conto ou outro tipo de texto breve e único, até mesmo um capítulo isolado de uma obra maior.





Uma folha de papel azul turquesa tamanho A4 vira um minilivro de oito páginas – vira também um pedaço do mar em seis poemas com leão marinho, baleia, lagosta, raia, polvo, tubarão, um cardume de sardinhas, peixe espada, caranguejo, um golfinho animado e sonho de pescador em forma de sereia. AQUÁTICA, do poeta Zhô Bertholini, com ilustrações de Guto Lacaz, tem o projeto gráfico assinado por Luzia Maninha e a produção de A Cigarra Edições (2016), de Santo André SP.


São seis quadrinhas bastante gaiatas para o pequeno leitor lembrar-se que “no oceano não tem onça”, mas, na poesia, há encontro de sonoridades entre as palavras.


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