22 de junho de 2017

sem pressa... para encontrar

peter O sagae


Novelo sonoro, a poesia é quase sempre definida pela escrita em versos, brotando por força e forma dos estados de alma. Contudo, existe na poesia um apelo diferente afora a rima e além do ritmo verbal. Na poesia, existe uma disposição para as imagens que não se veem em qualquer lugar, no entanto passíveis de admirá-las no terreno invisível e fecundo da linguagem, no momento em que são nomeadas, isto é, tiradas de um esconderijo, da semente do cotidiano.

Vejamos um exemplo.
Dentro da mesa tem um cavalo.
Taque taque taque taque
A sala é um campo
e o relógio de parede é a lua.

Taque taque taque taque
Taque taque taque taque

O cavalo que dorme dentro da mesa
galopa pela casa
a cada noite.
Este poema pertence a um livro que não pode passar escondido de sua leitura. O que há dentro do livro também não poderá passar escondido a seus olhos, ouvidos e imaginação. ESCONDIDO, um pequeno livro da escritora chilena Maria José Ferrada, revela um horizonte que transcende os objetos imediatos e vai nos levando ao lugar onde o desígnio da poesia transforma-se em desenhos. Ou quadros, dentro de nós.


Publicado com a tradução de Carla Caruso e Fernando Vilalba, mais as ilustrações em fotomontagem de Rodrigo Marín Matamoros (ÔZé Editora, 2016), este pequeno livro abre-se amplo para abrigar a alma – ou a mente pré-lógica das crianças e adultos que não perderam tal essência e sentem-se tentados sempre a olhar as coisas como se fossem outras, em sua estrutura visual e linguística.


Os poemas de Maria José Ferrada não possuem título, ou seja, não há para eles qualquer mediação ou antecipação de sentidos. Cada primeiro verso é, pois, o convite e o caminho necessário para percorrermos. Se, dentro da imagem da mesa está escondido um cavalo, uma verdade aí se funda e projeta-se com efeito pela semelhança de suas quatro pernas – e taque taque taque o som anima seu galope na palavra. Por contingência, a sala é assertivamente um campo, lugar ilimitado, e o relógio, uma lua. Através da analogia das formas visuais, tudo o que pertence ao cavalo-universo escondido desperta...

Compassado, o trote transita igualmente entre os segundos do relógio. A onomatopeia cresce e toca dois diferentes objetos, permitindo que – cavalo e lua – dialoguem em uma única linguagem, em identidade sonora. O cavalo era um animal suposto, dentro da mesa, dormindo nas horas claras do dia. No silêncio encoberto pela noite, ele galopa, movido pela voz do relógio. Ou faz este relógio mover-se ao comando de seus cascos de madeira... Em qualquer hipótese interpretativa, o poema grávido de imagens perfaz um rodeio, um carrossel sobre as próprias ideias.


E, dentro da sopa tem um mar que não aparece nos mapas, dentro das pedras uma cordilheira adormecida e, na fumaça das chaminés, o que vive escondido? No jogo com a criança, geralmente os poemas jamais chegam destituídos de imagens. Contudo, seria preciso separar estes daqueles que apenas poluem a retina da imaginação com o excesso, o grotesco e lugares comuns. Observando o mundo com sensibilidade e afeto, Maria José Ferrada, muita perceptiva, sem pressa, permite aos leitores encontrarem a beleza de cada coisa além da coisa vista, ao investir-se de liberdade criadora.



Também a poesia se dá na combinação de duas ou mais imagens visuais. O trabalho de colagens de Rodrigo Marín é quase todo pautado numa intervenção silenciosa. O incurso acolhido à fotografia reafirma o ponto de partida dos poemas, com os objetos vistos cotidianamente na realidade – velhos conhecidos talvez nublando a visão –, conquanto o processo de montagem é o que ilumina, com simplicidade e economia, novos lugares para respirarmos.


ESCONDIDO é um pequeno livro, do tamanho de nossas mãos, e pede para ser levado embora. Amanhece. Ele e você partirão para longe, aposto, unidos.

a quem interessar possa


abro livremente um livro e encontro um poema
que me faz bem, às vezes numa manhã cinza ou já azul,
raramente à tarde, quem sabe à noite, e penso
compartilhar no dia seguinte, num instante depois

OS MEUS LIVROS,
de Jurema Barreto de Souza
Os meus livros me conhecem
pelo tato quando os toco
arrepiando suas páginas
como um gato fiel a casa,
casa que sou das palavras
das histórias que li de outros
dos poemas que escrevi de mim.
Os meus livros me olham
quando entro na sala
e sabem que os amo no silêncio
passando os dedos por suas lombadas.
Os meus livros passaram comigo
pelas provas de fogo da vida
pelas angústias de crescer.
Janelas, me deram paisagens.
Oráculos, me deram respostas.
Naves, me deram viagens interestelares
e fugas mágicas rumo a alegria.
Meus livros que me conhecem
impregnados estão da minha vida
aqueles que li e os que escrevo
darão, a quem interessar possa,
breves notícias de mim.

SOUZA, Jurema Barreto de. “Os meus livros”
In: Policromia. Santo André, SP: A Cigarra Edições, 2010 p. 27.
O’Abre Aspas, contato com a autora [aqui].

21 de junho de 2017

chuva de haicais

peter O sagae


A propósito do livro de Sônia Barros: NAS ASAS DO HAICAI, com desenhos de Angela-Lago (Aletria, 2016), encomendo chuva. Que a poesia desça quente agora no inverno e amiga nas demais estações. E tenhamos olhos de voar, uma vez que
Este livro é vivo,
em cada haicai um voo
terno ou divertido.
Este livro... tem feitio de ABC, onde tudo repentinamente se move: seres da natureza, objetos inanimados e coisas também invisíveis – a fofoca e a web à nossa volta. E, livro dentro do livro, no desenho da letra, este
Livro se transforma
em tapete voador
quando tem leitor!

Vem do prefácio, no entanto, a melhor lição. Sônia Barros sobrevoa nomes que a precederam na aventura do haicai. “Aqui no Brasil, grandes poetas contribuíram para divulgar a arte do haicai, como, por exemplo, Guilherme de Almeida, Paulo Leminski, José Paulo Paes, e, ainda hoje, Leo Cunha, Alonso Alvarez, Nelson Cruz, Angela Leite de Souza e outros.”

Para uns, esta forma especial de poesia é uma pintura em palavras em rápidos movimentos que traduzem as transformações dos seres da natureza e do próprio homem, sem jamais o poeta deixar confessos um pensamento particular ou seus sentimentos. O haicai, em sua origem, é um estado de contemplação, exercício ainda possível mesmo em meio ao tremor e o murmurejo urbanos. É preciso manter-se zen.

Para outros, importa a originalidade, uma vez que o léxico de imagens de animais, plantas e fenômenos da natureza tende à repetição através dos séculos – e é preciso renovar. Assim, na escolha de temas, ocidentalizando-se, o haicai tem abandonado a atmosfera aparentemente despreocupada para alcançar algo mais: humor, ficção sensualidade, crítica social.

Vale a pena rever.




Guilherme de Almeida, em MEUS VERSOS MAIS QUERIDOS (1967) retoma cinco haicais publicados em POESIA VÁRIA (1947) e é, deste volume anterior, que a Internet me traz uma CHUVA DE PRIMAVERA.
Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.
Então, Paulo Leminski – LA VIE EN CLOSE (Brasiliense, 1991) –
chove no orvalho
a chave na porta
como uma flor no galho
Um pulo no JARDIM DE HAIJIN, livro para jovens leitores de Alice Ruiz S (Iluminuras, 2010) PNBE 2012 –
dia de chuva
orquídeas na cozinha
espiam pela janela
Haijin é a pessoa que faz haicais ou HAI-KAIS, como o irreverente Millôr Fernandes (L&PM Pocket, 1997), com sua métrica e velocidades próprias:
Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.

Então troco José Paulo Paes por Maria José Palo, para entrar na poesia para crianças com a lembrança do livro HISTÓRIAS EM HAI-KAI (Vale-Livros, 1992), em parceria com a artista plástica Kris Palo na composição visual, que se inicia com uma chuva de sementes coloridas semioticamente reais:
eu te ofereço:
sementes de luz e cor
no fundo do mar!

E logo colhemos, das mãos de Angela Leite de Souza, TRÊS GOSTAS DE POESIA, primeiramente com ilustrações de Marilda Castanha (1995) e depois com Lúcia Hiratsuka (Moderna, 2002).
Lá vai meu boné
volteando pelo céu...
Cabeça-de-vento!

Esta é a chuva que um livro dispara em nossa mente, em uma nuvem carregada de poetas, cada qual com seu posto-espírito de observação e... metalinguagem também, como neste haicai dos HAICAIS PARA FILHOS E PAIS, de Leo Cunha, um livro “recortado” [espie] com amostras de cor por Salmo Dansa (Record, 2013) –
As quatro estações
não moram nos calendários
e sim nos haicais.

Nas asas do verso, termino PREGUIÇOSO que só:
Levanto-me cedo...
Deus condói-se e manda chuva,
num livro adormeço.
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